Meu último suspiro

Mal consigo respirar e meu mundo se resume a uma cama. É difícil dormir com tantos tubos, remédios e enfermeiras, então acabo cochilando várias vezes ao dia e rezando para conseguir acordar. Quando não se tem muito tempo, assistir as memórias é um paradoxo de desperdício e deleite. Não canso de me impressionar com a quantidade de lembranças que cabe em alguns poucos segundos, mas é difícil me entregar a elas e correr o risco de deixar os últimos instantes escaparem. Falta-me ar, e meu último suspiro está chegando.

Em alguns poucos dias, após vir para cá, já não era mais o mesmo. Todos os medos, vergonhas e segredos marcados em minha pele deixaram de ser relevantes. As cicatrizes que as primaveras se esqueceram de curar não desapareceram, mas se tornaram riscos que não conseguem ultrapassar minha superfície. Tudo que tenho dentro de mim quer rasgar meu corpo e sair, mas já não consigo mais me expandir. Falta-me ar, e meu último suspiro está chegando.

As caridades que fiz ao longo da vida de nada parecem valer nesse instante. Sinto minha humanidade escapar por meus poros e me deixar abandonado com meu eu, enfrentando os fantasmas que sempre me acompanharam e que ignorava. Eles me assustam, e isso dói. Mas essa dor revela toda a beleza e pureza que tenho; beleza antes escondida sob as camadas de benevolência social que cultivei. É lindo me ver, finalmente, nu. É como se eu tirasse o véu que gentilmente havia enrolado em meu corpo para ver minha insignificante existência adornada por falsidade e admiração. Dedico preciosos instantes a esses pensamentos e tento, concomitantemente, descobrir porque parecem tão importantes. Falta-me ar, e meu último suspiro está chegando.

Lembro-me dos lugares e pessoas que visitei. Segui por ruas tortuosas, encontrei becos sem saída, contornei montanhas e caí em precipícios. Foram muitas caras, muitas poses, muitas fachadas e muitos caminhos. Persegui o arco-íris para poder admirá-lo por mais tempo, e naveguei por rios para me banhar em mares. Ouvi Bob Dylan incansavelmente. A vida é um destino sem mapa, onde cada curva nos reserva mentiras sedutoras travestidas de certezas e clichês, que nos esperam com olhares piedosos e compreensivos. Carreguei tudo isso comigo, como se fossem coisas indispensáveis para minha travessia, por carência e medo de ficar sozinho. Ironicamente, ao final, essa cruz ficou pesada demais e tive que deixá-la para trás. Falta-me ar e meu último suspiro está chegando.

Recebo minhas últimas visitas, as das pessoas que julguei serem importantes em minha vida. Meus músculos estão relaxados e minha mente atrevida, ao contrário do que, juntos, fomos. São todos randômicos; sucessivos acasos que as circunstâncias me obrigaram a amar. Esse dever, que cumpri com sincera dedicação, esvaziou lentamente meus desejos. Afinal, nasci e morrerei sem eles – que são raros – mas que há muito já morreram para mim. Parto sozinho. Para eles, porém, estarei sempre ali, inodoro e belo, louvável, como o retrato de uma flor adornando a sala.

Absorto em meus devaneios, quase não sinto o calor da mão que tocava a minha partir delicadamente.

Falta-me ar. E meu último suspiro…

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A natureza humana

“Como vai, meu amigo? Sinto sua falta!” – assim começava a carta de Carlos, direta e gentil, como ele.

Carlos era um amigo de longa data, desses que você gosta mais por quem vocês foram do que por quem são. Ou pelo que acredita que foram e pelo que, juntos, viveram. O fato é que gostamos, um dia, basicamente das mesmas coisas (como debater Breakfast of Champions, do Vonnegut), e é difícil definir em que momento perdemos nossa interseção de interesses. Adoro esse conceito de “interseção de interesses”; imaginar círculos com pontos de contato dá uma ideia ingênua de individualidade, como se fôssemos mais do que previsíveis cópias mal acabadas uns dos outros e infinitos clichês maquiados de indivíduos.

Meu amigo Carlos foi uma dessas cópias, ou melhor, uma espécie de rascunho mal escrito do que eu fui. Mas isso foi antes dele encontrar um modelo que fosse mais simples de, digamos, se inspirar. É a natureza humana.

Bem, ao menos é nisso que eu gostava de acreditar: que era complexo demais para ele copiar. É a natureza humana.

De qualquer forma, já não conhecia Carlos como antes e todos esses pensamentos eram não mais do que irrelevâncias. Até porque, a verdade é que gostava dele simplesmente por ser especial nas minhas memórias. As minhas memórias… Sim, as minhas memórias! Essa era minha interseção com Carlos!

“Por aqui, melhor impossível! Minha pequena já está na escola, a do meio é a melhor da classe e o mais velho é camisa 9 do time de futebol – está com 8 anos e sua única certeza é que será artilheiro da seleção em, pelo menos, duas copas”.

As palavras de Carlos pareceram um feitiço que me transportou para meus primeiros anos de vida. Eu jamais havia sido bom com esportes. Na infância, ser jogador de futebol não é apenas um sonho, mas um futuro inevitável e imprescindível. Eu, porém, sentia que essa certeza/sonho havia-me sido roubada muito precocemente. Sendo tediosamente preciso, não fui suficientemente bom para acreditar nisso, nem desastrosamente ruim para me conformar que nunca seria.

Aliás, meu desempenho no futebol era uma espécie de metáfora óbvia da minha vida: uma sucessão de mediocridades e ausência de extremos que jamais me forçou a agir.

De uma forma ou de outra, contudo, eu agi. Minha inaptidão com esportes me jogou para os livros. Os livros, por sua vez, surrupiaram meu traquejo social. Minha falta de traquejo espantou as mulheres (claro). E todos juntos me transformaram em um pensador apático e solitário.

Sei que essa análise é um grande (e medíocre) simplismo, mas é assim que eu vejo. Não por objetividade – antes fosse – mas por pura indolência. É a natureza humana.

“Maria está melhor e já não tem mais os delírios de antes. É estranho, mas sinto falta disso! Há finais de semana onde tudo que eu gostaria de fazer é cuidar dela, sem pensar em outras coisas. Fazendo a coisa certa, sabe? Sem dúvidas, questionamentos e todas essas besteiras que só atrapalham”.

Maria era a mulher de Carlos. “Uma mulher rara” – nas palavras dele, que usava rotineiramente essa expressão como um eufemismo para “não é uma vadia”. De rara, para mim, Maria pouco tinha: era só mais uma mulher que passa a vida escondida sob o papel de santa e fugindo dos espelhos, temerosa que pudessem refletir seus desejos sombrios.

A estratégia básica de Maria era mentir para si mesma até se confundir com seu personagem. É a natureza humana.

Pessoalmente, creio que é impossível que alguém consiga passar a vida evitando espelhos. Espelhos estão em todos os lugares, sempre à vista, aos olhos e nos olhos das pessoas. Com Maria não foi diferente: se esquivou o quanto pôde, mas acabou encontrando a inevitabilidade.

Ao se deparar com sua imagem, Maria deu a si uma instantânea e cavalar dose de placebos, trocando o tempo que usava para refletir por comida, academia, orações, pecados, novela, apatia e drama. Destaque para a apatia – acompanhada, muitas vezes, por um sorriso ensaiado e quase sincero – e para o drama – que servia, inconscientemente, para tornar sua realidade verossímil.

As pessoas não conseguem acreditar em nada que não tenha algum drama. É a natureza humana.

Carlos, por sua vez, fez o possível para salvar Maria. “Possível”, claro, dentro do que ele acreditava ser possível. E “salvar”, claro, na visão dele de salvamento. Na prática, Carlos deu uma combinação de ternura, remédios e persistência, até conseguir trazê-la para o que as pessoas chamam de realidade. “Normal” define.

Eu chamaria o que Carlos chama de realidade de “loucura coletiva”, mas sou inseguro demais para usar clichês. É a natureza humana.

“Uma confissão: as coisas estão indo tão bem que fico até assustado! Tudo parece perfeito, mas sei que a perfeição não existe. Então procuro problemas, mas até eles servem para enaltecer as coisas boas. E isso deixa a perfeição mais plausível. E não saio do lugar!

“O problema verdadeiro é saber que a perfeição não existe. Mas ela não existir – e por isso eu questionar – faz tanto sentido que é um paradoxo, pois é perfeito. Perfeito, meu amigo, perfeito! Você entende o que eu digo? Sinto-me assustadoramente próximo da perfeição. E se eu estiver? Se estou, e ela não é real, onde afinal eu estou? Se minha realidade é perfeita, mas não existe, o que ela é? O que existe? Meu amigo, eu estou perdido na perfeição. Eu estou perdido!”

Essas palavras me perturbaram… Esse não era o Carlos que eu conhecia! Carlos sempre foi o tipo de sujeito que, entre um bom questionamento e uma certeza imbecil, ficaria com a segunda opção. Sem titubear!

Eu costumava dizer que a vida é um obscuro e profundo mar de dúvidas, onde as certezas são barcos que dão segurança aos que querem viver na superfície. Carlos riu durante anos da minha teoria, e dizia que eu criava palavras bonitas para negar a realidade. Palavras bonitas… Como se “barco” pudesse ser uma palavra bonita! De qualquer forma, Carlos sempre esteve na turma que quer mais do que viver na superfície: ele almejava um barco que fosse suficientemente grande para jamais ter de olhar para a água.

Estaria seu barco afundando?

“Minhas divagações e rodeios postergam, meu amigo, mas não me impedem de chegar ao ponto: preciso fazer uma grande mudança em minha vida para colocar as coisas novamente nos eixos. Sua companhia foi a pior e a melhor que tive; foi especial, essencial, indispensável. Você é o contraponto que me evidencia; o que é, define o que não sou. Sou sua antítese, seu verso, seu lado B. Sou seu vazio e você é o meu.

“Por isso, meu amigo, já não suporto mais carregar sozinho meu terrível segredo. Sei que nunca me perdoará e que fará o possível para que jamais falemos novamente. Sei disso. Tenho a mais absoluta convicção disso. E tenho porque é isso que me define: sou a certeza que criou para suportar sua mediocridade.

“Eu sou você, Carlos. E agora que ambos temos ciência disso, sabemos que o mais fraco de nós sucumbirá.

“Afinal, meu amigo, é a natureza humana”.

É a natureza humana.

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